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Editora: 12min
O surto de ebola na República Democrática do Congo passou de dois marcos na mesma semana de agosto de 2026. Na segunda-feira, 17, com 2.325 mortes confirmadas, tornou-se oficialmente o mais letal da história do país, superando as 2.299 mortes do surto de 2018-2020. Cinco dias antes, o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde, Tedros Adhanom Ghebreyesus, havia declarado que, no ritmo atual, ele pode ultrapassar o surto do oeste da África de 2014-2016 — o maior já registrado no mundo, com 28.616 casos e mais de 11.300 mortes em Guiné, Libéria e Serra Leoa.
O que explica esses números não é um vírus novo e mais agressivo. É a combinação entre uma cepa rara para a qual não existe vacina nem tratamento aprovado e um país que não tinha como impedir sua circulação: conflito armado ativo, desconfiança das comunidades em relação aos centros de tratamento e um sistema de vigilância que só percebeu o surto meses depois de ele começar.
O governo congolês declarou o surto em 15 de maio de 2026 — o 17º da história do país, onde o vírus foi identificado pela primeira vez em 1976, perto do rio Ebola. O sequenciamento genético mostrou depois que o vírus já circulava desde fevereiro. A primeira vítima suspeita conhecida, um homem de 59 anos, teve sintomas em 24 de abril e morreu três dias depois; as autoridades sanitárias só foram alertadas em 5 de maio, por meio de redes sociais, quando 50 pessoas já haviam morrido, segundo a agência de saúde da União Africana (Africa CDC).
A velocidade é o dado que mais chama atenção dos especialistas. O surto de 2014-2016 levou quase cinco meses para chegar a mil mortes; o atual passou de duas mil em menos de três meses. Segundo dados do governo divulgados em 11 de agosto, foram cerca de nove semanas para as primeiras mil mortes e apenas três semanas para dobrar esse número. A OMS classificou a velocidade de transmissão como "excepcional": na semana epidemiológica 32, de 3 a 9 de agosto, foram registrados 579 casos e 304 mortes, os maiores números semanais até então.
A expansão geográfica acompanhou. O surto começou na província de Ituri, no nordeste, onde se concentraram mais de 3.400 dos casos, e chegou a seis das 26 províncias do país. Segundo Jean-Jacques Muyembe, do Instituto Nacional de Saúde, o primeiro caso ali foi um mototaxista que havia procurado atendimento em vários hospitais antes de morrer.
O surto é causado pela espécie Bundibugyo do vírus ebola, uma das quatro que afetam humanos — as outras são Zaire, Sudão e Tai Forest. A Bundibugyo causou apenas dois surtos conhecidos antes deste, em 2007 e 2012. Não há vacina nem tratamento aprovados para ela.
Isso é o centro do problema. A vacina desenvolvida depois da crise de 2014-2016 e os medicamentos que funcionaram então foram feitos contra a cepa Zaire, geneticamente distinta. "O que importa aqui é que o vírus Bundibugyo hoje não tem os mesmos tratamentos licenciados e comprovados que temos para o ebolavírus Zaire", disse Krutika Kuppalli, médica infectologista com experiência em resposta a surtos, à Al Jazeera. Sem medicamento específico, o cuidado se limita a suporte clínico — reposição de líquidos e eletrólitos, tratamento de choque e de falência de órgãos.
Um estudo publicado na revista Nature Medicine em agosto, feito por pesquisadores do Congo, de Uganda, da Bélgica e de outros países, analisou o material genético de amostras de 22 pacientes e concluiu que a cepa atual é geneticamente distinta das de 2007 e 2012. A conclusão é que o surto começou com um novo salto de um animal para um humano — o que Kuppalli chama de "transbordamento zoonótico" — e depois passou a se espalhar de pessoa para pessoa. O animal de origem não foi identificado. Kuppalli fez uma ressalva importante: isso não significa que uma forma nova de ebola tenha surgido, nem que a origem animal torne o vírus intrinsecamente mais perigoso.
Kaseya afirmou em agosto que as autoridades estavam preocupadas com a possibilidade de o vírus estar sofrendo mutações, e que o Africa CDC planejava novos estudos com a OMS. Sylvie Briand, cientista-chefe da OMS, disse que até então nenhuma mutação havia sido observada neste surto.
A taxa de letalidade — proporção de mortes entre infecções confirmadas — subiu de cerca de 20% no início de junho para 46% em agosto. Quase um em cada dois casos confirmados termina em morte. Especialistas dizem que isso não significa que o vírus tenha se tornado mais letal.
"Normalmente, conforme um surto avança, a taxa de letalidade deveria cair, porque o rastreamento de contatos melhora e os pacientes são identificados e tratados mais cedo", disse Thomas Parisch, especialista em saúde pública enviado ao Congo pela Médicos Sem Fronteiras. "Em vez disso, continuamos vendo muitos casos detectados muito tarde, quando o tratamento tem menos chance de dar certo, com muitos identificados só depois de a pessoa morrer na comunidade."
Mohamed Yakub Janabi, diretor da OMS para a África, afirmou que mais de 70% das pessoas morrem na comunidade, não nos centros de tratamento. As razões aparecem nos relatos de quem está lá. Flavier Ngurima, morador de Nizi, em Ituri, contou que o irmão morreu antes de chegar ao centro: "Chamamos uma enfermeira da família para tratá-lo em casa, porque ele e os parentes tinham medo de ir ao centro de tratamento. Diziam que lá muita gente morre." Jean-Paul Malo Lotsima, dirigente de uma organização da sociedade civil em Djugu, também em Ituri, explicou que muita gente acredita "que se trata de envenenamento ou de outra doença", e por isso só levam o doente ao hospital no último momento — quando às vezes ele morre no caminho.
A esse quadro se somam ataques a unidades de saúde, frequentemente motivados por informações falsas sobre os enterros seguros, e greves de profissionais de saúde não pagos. Nas últimas semanas, os trabalhadores do centro de tratamento de Nizi cruzaram os braços e a unidade fechou temporariamente; diziam estar sem salário havia três meses. Mais de cem profissionais de saúde foram infectados e cerca de 35 morreram. O financiamento humanitário para o país caiu bruscamente em 2025, sobretudo depois de o governo Trump congelar a ajuda externa a programas do Departamento de Estado, o que enfraqueceu sistemas locais de saúde e redes de vigilância.
A geografia agrava tudo. Ituri é uma região rica em minerais disputada por grupos armados, com quase um milhão de deslocados pelo conflito, segundo o escritório humanitário da ONU. O surto também avançou para áreas de Kivu do Norte e Kivu do Sul controladas pelo grupo M23. Janabi resumiu em entrevista em Bunia: "Estamos correndo atrás do vírus; o vírus está à nossa frente." Segundo ele, as equipes de saúde alcançam cerca de 30% dos casos. Para conter a transmissão, é preciso rastrear 95% dos contatos; a taxa atual está em torno de 80%.
Testes clínicos de dois tratamentos antivirais começaram em julho em Ituri. Tedros anunciou em 12 de agosto que duas vacinas desenvolvidas especificamente para a Bundibugyo estavam sendo testadas em pessoas pela primeira vez. A agência reguladora britânica de medicamentos, a MHRA, autorizou os primeiros testes em humanos de uma vacina criada por uma equipe da Universidade de Oxford, baseada na mesma tecnologia da vacina Oxford-AstraZeneca contra covid-19. Outros três grupos desenvolvem vacinas para a cepa, ainda sem testes clínicos. A OMS também recomendou um teste em larga escala da vacina Ervebo, eficaz contra a cepa Zaire e de eficácia não comprovada contra a Bundibugyo; a aliança de vacinas Gavi disponibilizou cerca de 500 mil doses de seu estoque. As evidências até agora vêm de estudos em animais.
Fora do Congo, os casos foram poucos. Uganda registrou 20 confirmados e duas mortes, todos em Campala, e foi declarada livre do ebola em 28 de julho. Dois pacientes foram tratados na Alemanha e um caso foi declarado na França — que teve alta em 4 de julho, sem transmissões secundárias, segundo a OMS. Bahrein suspendeu por 30 dias a entrada de viajantes estrangeiros vindos do Sudão do Sul, do Congo e de Uganda. Ruanda barrou estrangeiros que estiveram no Congo nos 30 dias anteriores. Os Estados Unidos avisaram que quem estivera no país nos 21 dias antes do embarque não poderá entrar em voos comerciais com destino ao território americano. Dentro do Congo, o aeroporto de Ituri foi fechado e há restrições a aglomerações.
Há também o temor de que o vírus chegue a Kinshasa, capital de 19 milhões de habitantes. Nenhum caso foi registrado lá. Christian Ngandu, coordenador do Hospital do Cinquentenário, disse à DW que há 20 leitos preparados, com possibilidade de expansão para 200 ou 250, e mais de 120 profissionais treinados. Segundo a OMS, no pior cenário seriam necessários milhares de leitos.
Para quem lê no Brasil, o risco pessoal de contágio é praticamente nulo. A transmissão exige contato direto com fluidos corporais de uma pessoa gravemente doente ou morta, e não pelo ar. "Isso não atravessa uma sala pelo ar", disse David Wohl, professor de medicina na divisão de doenças infecciosas da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill, à Fox News Digital. No surto de 2014-2016, que infectou mais de 28 mil pessoas, apenas quatro casos foram diagnosticados nos Estados Unidos, segundo o CDC americano: dois importados e duas enfermeiras contaminadas ao cuidar de um paciente em Dallas.
O que vale acompanhar nos próximos meses são três prazos que as próprias autoridades colocaram na mesa. O primeiro é o da OMS: Abdirahman Mahamud, diretor do programa de alerta e resposta a emergências, disse que, se todos os componentes da resposta forem aplicados simultaneamente nas cinco zonas de transmissão, é esperada uma reversão da tendência em três meses — o que não significa fim do surto. No cenário moderado da própria agência, o pico só chega em seis meses; no severo, o surto se estende de nove a doze meses. O ministro da Saúde congolês, Samuel Roger Kamba, afirmou: "Ainda não chegamos ao pico."
O segundo é o das vacinas e tratamentos experimentais. Saber se as duas vacinas em teste humano e os dois antivirais avaliados em Ituri mostram eficácia contra a Bundibugyo é o que define se o próximo surto desta cepa começará com ferramentas na mão ou de novo do zero.
O terceiro é o mais amplo. Kuppalli apontou o que este caso mostra sobre preparação: "Ainda não entendemos completamente onde e quando esses eventos de transbordamento vão ocorrer, o que torna a prevenção e a detecção precoce extremamente difíceis." E resumiu: "Este surto está nos mostrando as consequências de quando o vírus ganha vários meses de vantagem." Vale observar se a queda no financiamento humanitário e o enfraquecimento das redes de vigilância voltam a aparecer nos próximos surtos — porque foi essa combinação, e não uma mudança no vírus, que produziu os recordes de agosto.
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